Resposta direta: sim, amamentar reduz o risco de câncer de mama. A maior análise já feita sobre o tema, publicada na revista The Lancet em 2002, estimou que o risco cai cerca de 4,3% a cada 12 meses de amamentação, somando todos os filhos, além de cerca de 7% a cada nascimento. Quanto mais tempo de amamentação ao longo da vida, maior a proteção.
Outubro Rosa costuma falar de exames, e eles continuam fundamentais. Mas existe um fator de proteção que quase não aparece nas campanhas e que está diretamente ligado ao meu trabalho: a amamentação. Como pediatra, neonatologista e vice-presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), quero explicar o que a ciência sabe sobre isso, sem exagero e sem culpa.
O que os estudos mostram
O dado mais citado vem do Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, que reuniu informações de 47 estudos em 30 países, com mais de 50 mil mulheres com câncer de mama e cerca de 97 mil sem a doença. A conclusão foi que a redução de risco acontece de forma cumulativa: cerca de 4,3% a cada 12 meses de amamentação.
Na prática, isso significa que os meses se somam. Uma mulher que amamentou dois filhos por um ano cada acumula 24 meses de amamentação ao longo da vida — e a proteção acompanha esse total.
Revisões mais recentes chegaram a resultados na mesma direção. Uma meta-análise publicada em 2015 na revista Acta Paediatrica, que embasou a série sobre amamentação da The Lancet de 2016, encontrou risco cerca de 26% menor de câncer de mama entre mulheres que amamentaram por mais de 12 meses no total, comparadas às que não amamentaram.
Por que amamentar protege a mama
Os pesquisadores apontam alguns mecanismos que ajudam a explicar esse efeito:
- Menos ciclos menstruais ao longo da vida. Durante a amamentação, especialmente nos primeiros meses, a ovulação costuma ficar suspensa. Isso reduz a exposição acumulada da mama ao estrogênio.
- Amadurecimento das células da mama. A lactação completa a diferenciação das células da glândula mamária, que ficam menos suscetíveis a alterações.
- Renovação do tecido. No fim da lactação, a mama passa por um processo natural de remodelação, que pode ajudar a eliminar células com dano no DNA.
Nenhum desses mecanismos transforma a amamentação em vacina contra o câncer. Ela reduz o risco, não o elimina. Por isso, amamentar não substitui o acompanhamento ginecológico nem os exames de rastreamento indicados para cada idade.
A proteção vale para a mãe e para o bebê
Amamentação é saúde da criança e da mulher ao mesmo tempo. Para o bebê, o leite materno protege contra infecções, diarreia e formas graves de doenças respiratórias. Para a mãe, além do câncer de mama, há evidência de menor risco de câncer de ovário e de diabetes tipo 2.
É por isso que a Organização Mundial da Saúde recomenda amamentação exclusiva até os 6 meses e continuada, junto com outros alimentos, até os 2 anos ou mais.
Amamentar por mais tempo não depende só de vontade
Aqui está o ponto que mais me importa como pediatra. Quando falamos que amamentar protege, não podemos transformar esse dado em cobrança. Muitas mães querem amamentar e param por falta de apoio: dor que ninguém tratou, um bebê que não ganhava peso e não teve a mamada avaliada, a volta ao trabalho sem lugar para fazer a ordenha.
O que ajuda de verdade:
- Informação ainda na gestação. Saber como é a pega, o que esperar do colostro e dos primeiros dias evita muito susto.
- Ajuda profissional nas primeiras dificuldades. Dor ao amamentar não é normal. Fissura, mastite e candidíase têm tratamento.
- Rede de apoio em casa. Quem cuida da casa e da mãe para que ela possa cuidar do bebê.
- Planejamento para a volta ao trabalho. Até os 6 meses do bebê, a CLT garante dois intervalos de meia hora por dia para amamentar.
E se eu não consegui amamentar?
Se você não amamentou, ou amamentou por menos tempo do que gostaria, este texto não é sobre você ter feito algo errado. O risco de câncer de mama depende de muitos fatores: genética, idade, histórico familiar, atividade física, peso, consumo de álcool. A amamentação é um deles, e é um fator que a sociedade inteira precisa ajudar a proteger, não uma responsabilidade que recai só sobre a mãe.
O mais importante é manter o acompanhamento com a sua ginecologista e fazer os exames indicados para a sua idade e o seu histórico.
Percebi um nódulo durante a amamentação. E agora?
Durante a amamentação, é comum sentir áreas endurecidas na mama, e a maioria tem causa benigna, como um ducto obstruído, ingurgitamento ou mastite. Esses quadros costumam melhorar com o esvaziamento da mama e o tratamento adequado.
Um nódulo que não melhora em uma a duas semanas, que cresce ou que vem com alterações na pele ou no mamilo precisa ser avaliado por um médico. Amamentar não impede a investigação: os exames de imagem podem ser feitos durante a lactação.
O olhar da Dra. Patty
No consultório, eu vejo todos os dias que a amamentação que dá certo é a que tem apoio desde cedo. Por isso eu começo a conversa ainda na gestação, na consulta de pré-natal pediátrico Maré da Chegada, e sigo na primeira semana, na Primeiro Mergulho, que já inclui a consultoria de amamentação feita por mim, com laserterapia quando indicada.
Proteger a amamentação é proteger a criança e a mulher. É um cuidado que atravessa gerações, como a maré.
Em resumo
- Amamentar reduz o risco de câncer de mama em cerca de 4,3% a cada 12 meses, de forma cumulativa.
- A proteção reduz o risco, mas não substitui os exames de rastreamento.
- Amamentar por mais tempo depende de apoio: informação, ajuda profissional, rede em casa e no trabalho.
- Nódulo que não melhora em uma a duas semanas durante a amamentação precisa de avaliação.
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Perguntas frequentes
Amamentar previne câncer de mama?
Amamentar reduz o risco, mas não previne totalmente. Estudos mostram redução de cerca de 4,3% a cada 12 meses de amamentação ao longo da vida.
Quanto tempo preciso amamentar para ter proteção?
A proteção é cumulativa: cada mês conta. O efeito é maior quando a soma da amamentação de todos os filhos passa de 12 meses.
Quem amamenta pode fazer mamografia?
Sim. Os exames de imagem podem ser feitos durante a amamentação quando há indicação. Converse com a sua ginecologista.
Nódulo na mama durante a amamentação é câncer?
Na maioria das vezes, não: costuma ser ducto obstruído, ingurgitamento ou mastite. Mas nódulo que não melhora em uma a duas semanas precisa de avaliação médica.
Amamentar também protege contra outros cânceres?
Há evidência de menor risco de câncer de ovário em mulheres que amamentaram, além de menor risco de diabetes tipo 2.
Referências
- Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Breast cancer and breastfeeding: collaborative reanalysis of individual data from 47 epidemiological studies in 30 countries. The Lancet, 2002;360:187-195.
- Chowdhury R, et al. Breastfeeding and maternal health outcomes: a systematic review and meta-analysis. Acta Paediatrica, 2015;104(S467):96-113.
- Victora CG, et al. Breastfeeding in the 21st century: epidemiology, mechanisms, and lifelong effect. The Lancet, 2016;387:475-490.
- Organização Mundial da Saúde. Recomendações sobre aleitamento materno.
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de mama: fatores de risco e proteção.
Dra. Patty Terrível — Pediatra / Neonatologista · CRM-SP 157.592 · RQE 61613 · Vice-presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SPSP. Conteúdo informativo; não substitui a consulta.
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