
Se você está lendo este artigo às 22h com o bebê chorando no colo há mais de uma hora, sem conseguir identificar o que está errado, saiba que você não está sozinha. A cólica do lactente é uma das queixas mais comuns nos primeiros meses de vida — e também uma das mais angustiantes para quem cuida, porque muitas vezes não há uma “solução” imediata, só acolhimento, paciência e algumas estratégias que ajudam a atravessar essa fase.
O que é, afinal, a cólica do lactente?
A cólica do lactente é definida, na literatura médica, pela chamada “regra de três”: choro intenso por mais de 3 horas por dia, em pelo menos 3 dias por semana, durante pelo menos 3 semanas, em um bebê saudável, bem alimentado e sem outra causa identificável para o choro. Ela costuma começar por volta da segunda ou terceira semana de vida, atinge o pico entre 6 e 8 semanas, e tende a desaparecer espontaneamente por volta dos 3 a 4 meses de idade.
É importante entender que a cólica não é uma doença: é um comportamento, um padrão de choro que afeta bebês por lo demais saudáveis. Estima-se que ela ocorra em até 20-25% dos bebês, e o choro geralmente se concentra no fim da tarde e início da noite — o famoso “horário do arrastão”, quando o bebê parece inconsolável mesmo depois de mamar, trocar a fralda e ser aconchegado.

Por que a cólica acontece? As teorias mais aceitas
A causa exata da cólica ainda não é totalmente compreendida, mas algumas hipóteses reúnem mais evidências científicas:
- Imaturidade do sistema digestivo: o intestino do bebê ainda está aprendendo a coordenar suas contrações (motilidade), o que pode gerar desconforto e gases.
- Microbiota intestinal em formação: estudos recentes associam a cólica a diferenças na composição das bactérias intestinais nos primeiros meses de vida.
- Sensibilidade a estímulos: alguns bebês são mais sensíveis a estímulos do ambiente (luz, som, movimento) e processam esse excesso de estímulo através do choro no fim do dia.
- Deglutição de ar: durante mamadas ou o próprio choro, o bebê engole ar, que se acumula no intestino e causa distensão e desconforto.
- Fatores hormonais: alterações nos níveis de hormônios relacionados à motilidade intestinal também são estudadas como possível fator contribuinte.
Um ponto importante para tranquilizar as famílias: a cólica não é culpa de nada que você fez ou deixou de fazer. Não é sobre technique de amamentação incorreta, não é sobre “manha” do bebê, e não significa que algo está errado com o desenvolvimento dele.
Como reconhecer o choro de cólica
O choro da cólica tem características relativamente típicas, embora nem todo bebê siga exatamente o padrão:
- Choro súbito, intenso e de tom mais agudo do que o choro habitual.
- Costuma ocorrer no mesmo período do dia, geralmente no final da tarde ou à noite.
- O bebê pode encolher as pernas em direção à barriga, arquear as costas ou ficar com o abdômen distendido e endurecido.
- O rosto pode ficar vermelho, e o bebê parece “inconsolável” — nem colo, nem mamada, nem troca de fralda parecem resolver de imediato.
- O choro pode ser interrompido pela eliminação de gases ou fezes, trazendo alívio temporário.
Entre as crises, o bebê geralmente está bem: mama normalmente, ganha peso adequadamente, dorme e interage — a cólica costuma se concentrar em episódios, não é um choro constante ao longo de todo o dia.

O que fazer durante uma crise de cólica
Não existe uma fórmula mágica que funcione para todos os bebês, mas algumas estratégias costumam ajudar a aliviar o desconforto:
Posição de “avião” ou “tigre no galho”: deitar o bebê de bruços sobre o antebraço, com a cabeça apoiada na dobra do cotovelo e as pernas penduradas de cada lado, costuma aliviar a pressão abdominal.
Movimento e balanço: embalar o bebê suavemente, caminhar carregando-o, ou usar um bebê-conforto/carrinho para um passeio curto pode acalmar tanto o bebê quanto quem cuida.
Ruído branco: sons constantes e suaves (chuveiro, secador, aplicativos de ruído branco) lembram o ambiente uterino e podem ter efeito calmante.
Massagem abdominal: massagear a barriga do bebê em movimentos circulares no sentido horário, ou fazer o movimento de “pedalar” com as perninhas, pode ajudar a eliminar gases.
Banho morno: a água morna relaxa a musculatura abdominal e pode trazer alívio momentâneo.
Contato pele a pele: segurar o bebê no colo, em contato direto com a pele, ajuda a regular a temperatura, a frequência cardíaca e reduz o cortisol — tanto do bebê quanto de quem cuida.
E a alimentação: existe relação com a cólica?
Em bebês amamentados no peito, raramente é necessário que a mãe faça restrições alimentares — a relação entre alimentos consumidos pela mãe e a cólica do bebê não é tão direta quanto muitas vezes se acredita, e restrições desnecessárias podem prejudicar a nutrição materna sem trazer benefício real. Em casos bem específicos, orientados por um profissional, pode-se investigar sensibilidade a proteína do leite de vaca (quando há outros sinais associados, como sangue nas fezes, ganho de peso inadequado ou dermatite importante).
Em bebês que usam fórmula, a técnica de preparo e a escolha da mamadeira (bicos que reduzem a entrada de ar) podem fazer diferença. Já a troca de fórmula por conta própria, sem orientação médica, não é recomendada como primeira medida — deve ser sempre discutida com o pediatra.
Mitos comuns sobre a cólica do bebê
Mito 1: “É porque o leite da mãe é fraco ou não sustenta.” A cólica não tem relação com a qualidade ou quantidade do leite materno. Bebês amamentados exclusivamente e com ótimo ganho de peso também podem ter cólica.
Mito 2: “Trocar de fórmula sempre resolve.” Trocas sucessivas de fórmula sem orientação raramente resolvem a cólica e podem mascarar outras causas que precisam de avaliação.
Mito 3: “Chás e simeticona sempre funcionam.” A evidência científica sobre a eficácia de simeticona é fraca, e chás caseiros podem ser contraindicados para bebês pequenos (risco de contaminação, açúcar desnecessário, interferência na amamentação). Qualquer medicação ou chá só deve ser oferecido com orientação do pediatra.

Quando a cólica pode ser outra coisa: sinais de alerta
Embora a cólica seja benigna e autolimitada, é fundamental que a pediatra avalie o bebê para descartar outras causas de choro excessivo. Procure avaliação médica, sobretudo se o choro vier acompanhado de:
- Febre (temperatura retal ≥ 38°C).
- Vômitos importantes, principalmente se forem em jato ou com coloração esverdeada/amarelada.
- Sangue nas fezes ou fezes com muco em grande quantidade.
- Recusa alimentar persistente ou dificuldade importante para ganhar peso.
- Choro que muda de padrão — mais agudo, mais prolongado, ou que não cede nem mesmo temporariamente com as estratégias habituais.
- Letargia, sonolência excessiva ou bebê “mole” (hipotonia).
Esses sinais podem indicar refluxo mais intenso, alergia à proteína do leite de vaca, infecção urinária, ou outras condições que precisam de investigação — daí a importância de nunca “naturalizar” completamente o choro sem uma avaliação profissional, principalmente na primeira vez em que os pais identificam esse padrão.
Cuidando de quem cuida: a saúde mental dos pais também importa
Passar semanas ouvindo o próprio bebê chorar sem conseguir consolá-lo é uma das experiências mais desgastantes da parentalidade precoce. É absolutamente normal sentir frustração, exaustão, culpa ou até raiva nesses momentos — sentir isso não faz de você um pai ou mãe ruim.
Se em algum momento você sentir que está perto do limite, é seguro e importante colocar o bebê deitado com segurança no berço, sair do quarto por alguns minutos e se acalmar antes de voltar. Revezar-se com o parceiro, familiares ou uma rede de apoio também é fundamental — ninguém deveria atravessar essa fase sozinho. Se a exaustão vier acompanhada de tristeza persistente, ansiedade intensa ou pensamentos preocupantes, procure apoio profissional: isso pode ser um sinal de depressão ou ansiedade pós-parto, que merece cuidado tanto quanto a saúde do bebê.
O olhar da Pediatria Sistêmica sobre a cólica
Na Clínica Mamma Gaia, entendemos a cólica não apenas como um sintoma isolado do bebê, mas como um momento que atravessa toda a família. Nosso acompanhamento nos primeiros meses (parte do programa “Ondinhas do Cuidar”) inclui espaço para investigar cuidadosamente outras causas de choro, orientar estratégias práticas de manejo, e também acolher emocionalmente os pais nesse período tão intenso.
Entendemos que informação de qualidade e uma rede de apoio presente fazem toda a diferença para atravessar essa fase com mais leveza — sabendo que ela é passageira, mesmo quando cada noite parece durar uma eternidade.
Em resumo
A cólica do lactente é comum, benigna e temporária — costuma melhorar por volta dos 3 a 4 meses de idade. Estratégias como a posição de avião, movimento, ruído branco, massagem abdominal e contato pele a pele podem ajudar a aliviar o desconforto durante as crises. Fique atenta a sinais de alerta como febre, vômitos importantes ou sangue nas fezes, que exigem avaliação médica imediata. E lembre-se: cuidar de quem cuida também é parte do cuidado com o bebê.
📅 Se seu bebê está com choro intenso e você quer uma avaliação cuidadosa para descartar outras causas e receber orientação personalizada, agende uma consulta com a Dra. Patrícia Terrível.
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Perguntas frequentes
Até quando dura a cólica do bebê?
A cólica costuma começar entre a 2ª e 3ª semana de vida, atinge o pico por volta de 6 a 8 semanas, e geralmente desaparece espontaneamente entre os 3 e 4 meses de idade.
Simeticona (Luftal) funciona para cólica?
As evidências científicas sobre a eficácia da simeticona para cólica são fracas e inconsistentes. Ela não deve substituir a avaliação médica, e seu uso deve ser sempre orientado pelo pediatra.
Preciso cortar leite e derivados da minha dieta se amamento?
Não, na maioria dos casos. Restrições alimentares só devem ser feitas com orientação profissional e quando há sinais específicos que sugerem sensibilidade à proteína do leite de vaca, não apenas pela presença de cólica isolada.
Cólica pode ser sinal de alergia ou refluxo?
Pode, em alguns casos. Se o choro vier acompanhado de vômitos frequentes, sangue nas fezes, recusa alimentar ou dificuldade de ganho de peso, é importante investigar essas possibilidades com o pediatra.
O bebê com cólica ganha peso normalmente?
Sim. Um dos critérios que define a cólica do lactente é justamente que o bebê está saudável, se alimenta bem e ganha peso adequadamente entre as crises de choro.
Trocar a fórmula infantil resolve a cólica?
Nem sempre. Trocas sucessivas sem orientação raramente resolvem o problema e podem atrasar a identificação de outras causas. Qualquer mudança de fórmula deve ser discutida com o pediatra.
Referências
- American Academy of Pediatrics (AAP) — Colic and Crying: Coping Tips.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — Manual de Orientação: Cólica do Lactente.
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Infant and Young Child Feeding.
- Ministério da Saúde — Caderneta de Saúde da Criança.
Dra. Patty Terrível — Pediatra e Neonatologista · CRM-SP 157.592 · RQE 61613. Conteúdo informativo; não substitui a consulta.