Entre tantas decisões da gestação — maternidade, obstetra, enxoval, plano de parto — existe uma que muita família só descobre no terceiro trimestre: quem vai receber o bebê na sala de parto? O obstetra cuida de você. O pediatra cuida do seu filho nos primeiros minutos de vida. E esses minutos importam mais do que parece.
Este guia explica por que o pediatra na sala de parto é obrigatório no Brasil, o que ele faz de fato, quando escolher e quais perguntas fazer para acertar na escolha — com o olhar de quem vive isso todos os dias nas maternidades de São Paulo.
Por que existe um pediatra na sala de parto?
Porque o nascimento é a transição mais intensa que um ser humano faz na vida. Em poucos segundos, o bebê deixa de receber oxigênio pela placenta e precisa respirar sozinho, aquecer o próprio corpo e manter a glicose. Cerca de 1 em cada 10 recém-nascidos precisa de alguma ajuda para iniciar a respiração, e 1 em cada 100 precisa de manobras mais avançadas — e isso acontece também em gestações sem nenhum fator de risco.
Por isso a Resolução CFM nº 2.056 e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) determinam que todo parto tenha um médico habilitado em reanimação neonatal, presente na sala e dedicado exclusivamente ao bebê. O obstetra está ocupado com a mãe; o pediatra está ali só para o recém-nascido.
O que o pediatra faz nos primeiros minutos do bebê
Quando tudo vai bem — e na grande maioria das vezes vai — o trabalho do pediatra é discreto e você quase não percebe. Ele:
- avalia o bebê já no colo da mãe: respiração, tônus, cor e frequência cardíaca (é o que gera a nota de Apgar no 1º e no 5º minuto);
- protege o contato pele a pele e o clampeamento tardio do cordão, sempre que o bebê estiver bem;
- acompanha a primeira mamada na primeira hora de vida, a chamada hora dourada;
- faz o exame físico completo, checa peso e medidas e orienta os primeiros cuidados;
- identifica precocemente qualquer sinal de que o bebê precisa de suporte — e, se precisar, inicia a reanimação de forma imediata e organizada.
Ou seja: um bom pediatra de sala de parto é aquele que sabe fazer tudo se for necessário, e sabe não interferir quando não é.
Quando escolher o pediatra do parto
O momento ideal é entre 28 e 32 semanas de gestação. Esse prazo dá tempo para uma consulta pré-natal pediátrica com calma, para alinhar o plano de parto e para o pediatra organizar a agenda em torno da sua data provável — lembrando que cerca de 10% dos bebês nascem antes das 37 semanas.
Se a sua gestação é de risco, gemelar ou há previsão de prematuridade, antecipe essa conversa para o segundo trimestre.
7 critérios para escolher o pediatra para o parto
1. Formação em Neonatologia e treinamento em reanimação neonatal
Pergunte se o profissional tem título ou residência em Neonatologia (o RQE de Neonatologia aparece no registro do CRM) e se o curso de Reanimação Neonatal da SBP está atualizado. Isso é o que garante que, no 1% dos casos em que algo foge do esperado, a resposta será rápida e correta.
2. Atende na maternidade que você escolheu
Cada maternidade de São Paulo tem regras próprias de credenciamento. Antes de qualquer coisa, confirme: “Você atende na maternidade X?”. Se ainda não escolheu a maternidade, o pediatra pode ajudar a decidir — ele conhece a rotina de alojamento conjunto, UTI neonatal e apoio à amamentação de cada uma.
3. Disponibilidade real e equipe de cobertura
Bebê não marca hora. Pergunte como funciona à noite, no fim de semana e em feriados; quem cobre se o pediatra estiver em outro parto; e como você será avisada. Uma equipe de cobertura organizada é sinal de seriedade, não de ausência.
4. Alinhamento com o seu plano de parto
Contato pele a pele imediato, clampeamento tardio do cordão, amamentação na primeira hora, procedimentos só quando necessários: converse sobre cada ponto e observe se o pediatra respeita as evidências e as suas escolhas — ou se responde com “aqui a gente faz assim”.
5. Acompanhamento até a alta
O trabalho não termina na sala de parto. Nos 2 a 3 dias de maternidade, o pediatra deve visitar o bebê diariamente, avaliar a pega, a perda de peso (fisiológica até cerca de 7 a 10%) e a icterícia, e orientar os testes de triagem — pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha.
6. Continuidade: ele vai seguir cuidando do seu bebê?
Quem esteve no nascimento conhece a história inteira. Se o mesmo pediatra fizer a primeira consulta do recém-nascido e a puericultura, vocês ganham uma continuidade de cuidado que faz diferença nas primeiras semanas — que são as mais cheias de dúvida.
7. Sintonia com a família
Esse é o critério que nenhum currículo mostra. Vocês se sentiram ouvidos? As respostas vieram sem pressa e sem julgamento? Você sairia daquela consulta mais tranquila ou mais assustada? O pediatra vai estar presente num dos momentos mais vulneráveis da vida de vocês. Confiança não é detalhe — é o critério principal.
Perguntas para levar à consulta pré-natal pediátrica
A consulta pré-natal pediátrica é justamente o encontro feito na gestação para conhecer o pediatra e alinhar tudo isso. Leve estas perguntas:
- Você é neonatologista? Tem o curso de reanimação neonatal atualizado?
- Atende na maternidade que escolhemos? Já conhece a equipe de lá?
- Como funciona o acionamento no dia do parto e quem cobre se você não puder ir?
- Como você conduz o pele a pele, o clampeamento do cordão e a primeira mamada?
- Você visita o bebê todos os dias até a alta? Avalia a amamentação com a gente?
- Vai acompanhar o bebê depois, na primeira consulta e na puericultura?
- Como faço para falar com você nas primeiras semanas se surgir uma dúvida?
Como funciona na prática, em São Paulo
Nas maternidades particulares da cidade, a família geralmente pode escolher entre o pediatra plantonista da instituição — que atende todos os nascimentos daquele turno, sem vínculo prévio com vocês — e um pediatra da sua escolha, que acompanha o parto e os dias de internação e depois segue com o bebê no consultório. Nos dois casos o bebê está seguro; a diferença está no vínculo, na continuidade e no quanto vocês se sentem acompanhados.
Vale confirmar também com o seu convênio ou com a maternidade como funciona a cobertura desse acompanhamento e o que é combinado diretamente com o pediatra.
O olhar da Dra. Patty sobre a sala de parto
Sou pediatra e neonatologista, responsável técnica pela Neonatologia de uma maternidade pública de São Paulo, e acompanho nascimentos há mais de uma década. Na Baía do Nascer — o acompanhamento em sala de parto da Clínica Mamma Gaia — o meu papel é garantir que o bebê chegue com segurança e que o primeiro encontro de vocês aconteça do jeito mais respeitoso possível: no colo, sem pressa, com a primeira mamada protegida.
Esse é o A de Acolhimento e o R de Ritmo do Método AMARÉ: cada família tem o seu tempo, e a ciência está ali para sustentar esse tempo, não para atropelá-lo. Depois do nascimento, sigo com o bebê na maternidade até a alta e, se a família quiser, na primeira consulta e na puericultura — a mesma pessoa, do primeiro minuto em diante.
Em resumo
Todo parto precisa de um pediatra habilitado em reanimação neonatal. Escolha o seu entre 28 e 32 semanas, priorizando formação em Neonatologia, presença na sua maternidade, equipe de cobertura, respeito ao seu plano de parto, acompanhamento até a alta e continuidade depois. E confie na sensação de ser ouvida: é ela que vai dizer se aquele é o pediatra certo para a sua família.
🌊 Se você está grávida e quer conversar sobre o acompanhamento do seu bebê na sala de parto, fale com a nossa equipe pelo WhatsApp ou conheça a Baía do Nascer.
Perguntas frequentes
É obrigatório ter pediatra na sala de parto?
Sim. A Resolução CFM nº 2.056 e as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria determinam que todo nascimento tenha um médico habilitado em reanimação neonatal presente, dedicado exclusivamente ao bebê. Nas maternidades de São Paulo isso pode ser feito pelo plantonista da instituição ou por um pediatra escolhido pela família.
Com quantas semanas devo escolher o pediatra do parto?
O ideal é entre 28 e 32 semanas, para dar tempo de fazer a consulta pré-natal pediátrica, conhecer o profissional, alinhar o plano de parto e confirmar a disponibilidade dele na data provável. Bebês podem nascer antes do previsto, por isso não convém deixar para as últimas semanas.
Qual a diferença entre pediatra e neonatologista na sala de parto?
Todo pediatra é formado para atender o recém-nascido, mas o neonatologista fez uma especialização adicional dedicada aos primeiros 28 dias de vida, incluindo prematuridade, adaptação respiratória e UTI neonatal. Para a sala de parto, procure um profissional com treinamento atualizado em reanimação neonatal (Programa de Reanimação Neonatal da SBP) — que pode ser pediatra ou neonatologista.
O pediatra que escolho para o parto precisa ser o mesmo que vai acompanhar o bebê depois?
Não precisa, mas é uma grande vantagem. Quem esteve no nascimento conhece a história do parto, viu a primeira mamada e já fez o exame físico inicial — o que torna a primeira consulta e o acompanhamento seguintes muito mais contínuos.
O pediatra do parto fica no hospital até a alta?
Depende do combinado. Na maioria dos acompanhamentos particulares, o pediatra faz a recepção em sala de parto e depois visita o bebê diariamente no alojamento conjunto até a alta, avaliando amamentação, icterícia e perda de peso. Confirme isso na consulta pré-natal pediátrica.
O que acontece se o parto começar e o meu pediatra não puder ir?
Todo pediatra sério trabalha com uma equipe de cobertura para essas situações. Pergunte quem são os profissionais que cobrem, como você será avisada e se eles seguem as mesmas condutas. Na ausência de qualquer um deles, a maternidade sempre tem o plantonista de recém-nascidos.
Referências
- Conselho Federal de Medicina — Resolução CFM nº 2.056/2013 (presença de médico habilitado em reanimação neonatal em todo parto).
- Sociedade Brasileira de Pediatria — Programa de Reanimação Neonatal: Diretrizes 2022 (reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto).
- Organização Mundial da Saúde — Recommendations on newborn health / Early essential newborn care.
- Ministério da Saúde — Atenção à Saúde do Recém-Nascido: Guia para os Profissionais de Saúde.
Dra. Patty Terrível — Pediatra e Neonatologista · CRM-SP 157.592 · RQE 61613. Este conteúdo é educativo e não substitui a consulta com o seu pediatra.